Isn't She Lovely
Aqui você não vai encontrar algo grandioso ou considerado uma obra literária ou sem erros. Nada tão formal como pede a lingua portuguesa ou extraodinário como Harry Potter. Caso queira ler algo bom vá á uma biblioteca, caso queira ler o que vem na cabeça, fique por aqui. (E.denis)

Apesares

1960 – A primeira briga

- Não acredito que você está brigando comigo por causa de futebol.
- E daí?
- você é menina.
- Você decide. Ou para de falar mal do meu time ou vai embora, agora.
- Está zoando com a minha cara! Eu sei que está… Só pode.
- Olha para a minha cara? Vê a zoação estampada nela?

Ela me olhou como quem, quer na verdade dizer “Obvio que estou falando sério”. Eu fui embora e sim, nos brigamos porque eu falei mal do time dela. Nem eu mesmo entendi como começou e só sei como terminou: eu expulso.

A noite, minha mãe me disse que ela havia ligado mais de 6 vezes. Foi engraçado, mas é claro que eu não me fiz de difícil, porque estava louco pra ficar com ela, pra namorar um pouco. Ela se usou, porque sabe que preciso dela não só por prazer, mas para viver mesmo.

Essa briga boba de longe foi à época mais difícil. Uma das, foi quando o pai dela perdeu o emprego e as conseqüências, simplesmente devoraram meu coração.
- Como assim, vocês irão mudar?
- Eu não quero ir. Mas eu tenho só 17 e minha mãe só permite que eu more com a minha avó quando eu tiver 18.
- Você não pode ir, porque se você não estiver aqui não vai ter “nós”.
- Para de ser bobo, sempre existira “nós”. Você acha que só por que vou estar em outra cidade, algo vai mudar? A única coisa nova vai ser a minha casa, mas meu coração sempre vai ser o mesmo que bate, que ama e que sempre quer mais um pouquinho de você.

Eu chorei como uma criança quando lhe tiram um doce.

- Amor, eu fiz as contas. Daqui até meu aniversario são 7 meses.
- Não diz como se fosse pouco. Se a cada uma hora longe eu morro um pouco, imagine 7 meses.
- Mas quanto drama!
- Você não parece se importar de estar indo…
- Eu me importo, mas eu sei que vou voltar. Se vou voltar para que vou sofrer? Você não vai me perder e eu muito menos vou lhe perder.
- Você não, mas eu vou ficar perdido.
- Esse tempo é muito pouco, perto do que ainda vamos viver.

“Vou parar por aqui, porque essa coisa de despedida é muito longa. Ainda mais quando o cara é grudento, como eu. Resumidamente:
A primeira semana foi a pior, porque eu não podia fazer nada para fazer o tempo passar de um modo que não pensasse nela.
No 3 mês eu comecei contar os dias, as horas.
Quando fazia 6 meses que ela estava lá pensei em visitá-la, mas ela me ligou chorando dizendo que estava com problemas. A mãe dela havia adoecido e não seria bom eu ir, porque a casa era pequena demais. Isso me magoou porque eu estava extremamente louco para vê-la, como se fosse alguém que eu nunca tivesse visto e estava muito a fim de conhecer

No mês que ela iria vir embora, ela me disse que não daria. Eu fiquei me perguntando se ela estava sofrendo ou sentindo minha falta, porque não era algo que parecia. Eu imaginava uma pessoa feliz, que estava vivendo perfeitamente sem mim.
Já estava completando 8 meses e agora era uma mistura de saudade com raiva. Ela havia me dito, apenas 7 meses.

Eu realmente parei de tentar ligar e mandar cartas. E então quando estava cansado e pensando coisas absurdas do tipo “Ela não me ama mais” ela apareceu. 10 meses depois, na porta da minha casa.
Foi estranho porque não deu tempo nem deu dizer como estava puto com ela, que quando fui ver estavamos no meu quarto. Pelados.

Eu nunca sonhei que fosse especial. Sabe essas baboseiras românticas? Eu só queria mesmo que fosse com ela… Foi bom e segundo ela foi lindo.
Depois que ela voltou para morar com a vó ficamos mais chicletes, inseparáveis.
Segundo minha mãe isso era só uma fase que todo adolescente passa e acha que vai ser para sempre”.

- Logo essa paixão acaba – dizia ela – O primeiro amor sempre é meio louco e obsessivo.
- É assim que você apóia? Dizendo que vai acabar?
- Meu papel filho é te ensinar e te preparar para a vida.

Veio-me uma pergunta, quando ela me disse isso.

- Mãe, afinal porque você e o pai terminaram?
- Mande sua namoradinha fazer 3 filhos. Então quando ela engordar e deixar de ser atraente e você começar procurar na rua qualquer uma mais bonita que sua mulher, vai saber por que eu me saparei dele… Alias, ele se separou de mim.

Esse assunto realmente à deixava mal.

- Você ainda gosta muito dele né? Mas você deve recomeçar, conhecer alguém. Você é linda, mãe.
- Quem quer uma mulher solteira com 3 filhos?
- Quanto a isso não se preocupe que logo eu caso e saio de casa.
- Você já está pensando nisso?
- Claro. Eu já conheci a minha mulher, só falta casar.
- Espero do fundo do coração que a relação de vocês seja como a dos seus avós. Eles se amaram até o ultimo momento. Nunca vou me esquecer como meu pai pedia todos os dias para que Deus o levasse depois que minha mãe morreu. Ele não estava agüentando sem ela.
- Então, vai ser assim. Eu e ela. E com certeza da tempo de você passar por isso. A gente nunca está velho demais ou cheio de problemas para não amar de novo… Porque isso é desculpa de quem tem preguiça de correr atrás da felicidade.
- Enfim! Seja feliz com a tua garota.
- Obrigado mãe.

Encerrei a conversa, porque vi nos olhos dela a vontade de chorar, como quem ainda sente a falta de outro alguém. E sabe que essa falta tem uma causa que não tem como ser resolvida porque a outra pessoa já refez sua vida e esta muito feliz.

1964  Depois de 4 anos de namoro, veio a noticia que foi o estopim para que começássemos a pensar no casamento.
- Eu to grávida - Ouvir “estou grávida” foi o mesmo que tomar um tranqüilizante. Fiquei sem reação – Ouviu o que eu disse?
- Ouvi!
- Então é assim? Você resolve ficar mudo quando mais preciso ouvir uma palavra…
- Casa comigo!
- Que?
- Como assim que? Você está grávida e então nós vamos nos casar.
- Assim?
- Você não me ama?
- Mas queria que o meu casamento fosse planejado e não algo às pressas.
- Não vai ser as pressas, em 2 meses nos casamos.

Ela começou chorar.
- Eu não sei se dou conta…
- Meu amor, você não está só.
- Eu sei. Só estou com medo… Mas vai passar.

2 meses depois nos casamos e fomos morar com a avó dela até nossa casa estar construída.
Eu odeio isso, mas não podia ir para casa da minha mãe, porque o espaço era pequeno.

Uma das coisas que virou mania foi passar a tarde deitado próximo a barriga dela. Antes mesmo de nascer eu já estava cuidando da minha filha. Queria uma menina, mas veio também um menino.

No sexto mês de gravidez veio a bomba
- E ai? Se para criar um não tínhamos dinheiro, imagine gêmeos!
- Poderia ser pior, pensou se fosse trigêmeo?
- Minha avó é aposentada, ela esta cansada, eu não posso ficar importunando ela assim. Entende? Ela não liga, mas tem algumas contas que estão atrasadas.
- Nossa casa está em construção. Antes deles nascerem, nos vamos ter nossa casa.
- Não quero ficar cobrando nada…
- Eu sei que eu ganho pouco.

Depois dessa conversa fui falar com o meu pai e ele então deu um bom dinheiro. Esse fato irritou a minha mãe.

- Filho eu tenho um dinheiro!
- Você tem e vai continuar tendo. Você o juntou com muito trabalho e não é justo eu usá-lo, sendo que você precisa dele tanto quanto eu.
- Pelo menos uma parte dele, aceita?
- Mãe, eu falei com o meu pai.
- Dele você aceita ajuda?
- Você sabe que…
- Ele é rico. Não precisa jogar na cara que eu sou a pobre da história.
- Para com isso!
- Por favor, vai embora.
- Mãe, não faz isso. Não quero ir, com você assim.
- Vai passar, eu só me sinto inútil de saber que não posso te ajudar quando você mais precisa.
- Eu passei minha vida toda precisando de você e você sempre me ajudou. Você me criou praticamente sozinha. Ele nunca estava em casa pra cuidar de mim, como você.
- Desculpa.
- Não tem o porquê deu te desculpar de algo. Eu te amo, mãe.
- As coisas vão melhorar.
- Com certeza.
Nunca a vi tão deprimida e eu achava uma pena ela ainda gostar do meu pai.

Ela estava completando 8 meses de gestação quando então nos mudamos para nossa casa. Era afastado da cidade, bem grande. Muito verde como ela queria.
Toda branca, com uma cadeira de balanço na varanda.

- Eu nem acredito que vou dizer isso.
- Diz bem alto – eu pedi – Por favor!
- Nossa casa.
- Só mais uma vez.
- Noooossa Casaaa!!!!
- É linda não é?
- Muito.
- Já estou imaginando eu chegando do trabalho, parando o carro e vindo até a varanda. Onde você vai estar sentada, segurando cada um em cada braço. Cantando uma música de ninar.

Ela fez cara de dor e quase caiu no chão, mas eu a segurei em tempo.

- Eu sei que esse momento está sendo muito lindo, mas é que eu acho que a bolsa…Aaaaaaaaaaaaaaaai!!
- Ai meu Deus, vai nascer.

Não deu tempo nem de entrar na casa. Foi meio que entre um desespero e uma boa atrapalhada chegamos ao hospital.
Nunca estive tão nervoso como no dia que eles nasceram. Não vou dizer que foi amor à primeira vista porque antes mesmo de nascerem já os amava, mas foi um sentimento diferente. Parecia que minha vida estava começando do zero.

Primeiro nasceu à menina que eu chamei de Darlene e depois o menino que ela deu o nome de Davi.
Já tínhamos entrado em um acordo de nomes.

 Vou pular a parte dos dias que eu fiquei babando, olhando para eles no hospital e dos vários choros que ocorreram. Ela, eu, minha mãe, a avó dela.

Alguns dias depois estávamos em casa.

- Eles dormiram.
- Eu nem acredito que eu te ajudei a fazer crianças tão lindas né?
- Puxaram pra mim.
- Ah é?
- Você também é lindo, sem drama.
- Depois que eles nasceram é como se não existissem mais problemas ou dividas para pagar – ela riu – então vamos aproveitar.
- Por favor, sem esquentar a cabeça com isso agora.
- A Darla agora é a rainha da casa.
- Já está assim, me trocando?
- Ok, ela é a princesa e você a rainha.
- Acho bom. Apesar de que o Davi é mais bonito que você!  - eu ri
- Você, a Darla e minha mãe são as mulheres da minha vida.
- Quero ver até quando… Porque olha os tamanhos desses peitos? Parece que foram trigêmeos
- É que tem eu também..
- Vai se ferrar
- Você é linda e está linda.
- Pareço atriz de filmes para adulto.
- Já disse como você está.
- Você faz seu papel direitinho. Mentir para que eu me sinta bem.
- A única vez que eu menti foi a primeira vez que você acordou depois de mim. Te ver naquela situação é pior que um filme do jason.

Ela me olhou sério, como naquele dia da briga do futebol.
 
- Pra você não ficar triste e se sentir feia sozinha, prometo comer muito até ficar parecendo uma bola.
- Nem pensar… Já basta eu nessa situação. Mantenha seu tanquinho e me faça feliz!

(Era tão bom ficar com esses papos bobos e vagos, com ela. Uma conversa ali, outro beijo aqui. Eram momentos tão nossos, tão simples, mas verdadeiro)
 
Nesse dia fomos interrompidos por um choro, que segundos depois se tornaram dois choros. Choravam na mesma hora.
Eu realmente pensei que fosse pirar, porque não só acordava com aquele som de choro, mas como também ia dormir com ele na cabeça.
Eu estava chegando do trabalho, quando então vi minha visão se tornando realidade.
Ela no balanço. Darlene estava no braço esquerdo e Davi no direito.

- Que cena linda, não?
- Eu to cansada!
- Me deixa pegar ela – com calma para não acordá-la, peguei Darlene – Da um espaço pra mim – e sentei do lado dela, no balanço.
- Amor, eu sei que estou chata, mas eu te amo, viu?
- Eu sei!
- Só isso? Eu sei?
- Ta carente também é?…Eu te amo. Eu daria minha vida por vocês três.
- Vamos colocar as crianças no berço? – quando eu me levantei, Darla deu um resmungo, isso quer dizer que ela estava irritada em estar sendo movida do lugar.
- Eu vou ficar mais um pouquinho aqui com ela. Leva o Davi.
- Olha que você tem que amar seus filhos igualmente viu?
- Eu amo.
- Tô de olho, porque é Darla pra lá, Darla pra cá. Até apelido a menina já tem.
- Para de ciúmes e leva ele, antes que ele acorde!
- Pai babão!
- Marido também.

Ela riu e entrou com ele.

Eu fiquei quieto, só ouvindo baixinho a respiração suave dela. Estava praticamente cochilando junto com a minha filha. Então, ouvi gritos de socorro, que vinham de casa.
Despertei assustado e não pensei muito, sai correndo.  Não me dei conta de como, mas em poucos segundo eu estava no quarto ( Não sei como consegui correr rápido, segurando Darla)
- O que aconteceu?
- Levaram – ela estava no chão e chorava muito. Olhei no berço e Davi não estava.
- Cadê o Davi ?– Com certeza minha cara foi de espanto… Coloquei Darlene em cima da cama e perguntei novamente – Cadê o Davi?
- Um homem, estava atrás da porta. Eu não vi… Foi tão rápido.

Nesse momento, ouvimos a partida de um carro. Sai correndo, seguindo o som, que dava nos fundos da casa. Cheguei tarde, mesmo correndo não consegui alcançar ou visualizar a placa do carro.

(Haviam levado meu filho. Quem e para que eram perguntas que eu me fazia toda tempo. Seqüestradores? Mas que dinheiro eu teria?)

Durante a semana foi um tal de entra e sai de policial. Varias perguntas, aquelas clichês, por exemplo, “Vocês têm algum inimigo?”. A verdade é que depois de 15 dias pararam de procurar ou tentar descobrir quem levou meu filho.
Sabe o que eu tive que fazer? Agüentar. Como quem tem que segurar um muro para que ele não caia em cima.
A minha mulher perdeu a noção de tudo, inclusive do tempo. Ela se fechou em um mundo só dela. Esqueceu-se totalmente que tinha um marido e uma filha. Era ela e a depressão.

1967 – Depois de 2 anos, eu realmente tentei fazer algo. Esse algo que eu falo é seguir a minha vida e por um tempo me senti mal por fazer isso, como se tivesse que esquecer do Davi. Porque eu tinha certeza que ele estava vivo, morando com alguém, mas onde? Não tinha como eu saber.
Também durante esses dois anos, a minha mulher entrou em em uma depressão profunda. E eu via como isso afetava nossa filha, que apesar de pequena (2 anos) sentia a ausência da mãe.

Enfim, nessa coisa de fazer algo incluía também uma festa de 2 ano pra Darlene. Essa festa foi a responsável pela nossa segunda briga. Só que essa mais séria, porque eu não estava disposto em voltar atrás ou me deixar levar pelo o que eu sentia.
Resolvi fazer um bolo de 2 anos para Darlene. Chamei a bisa, minha família e mais 3 amigos do trabalho.
Quando estávamos cantando parabéns, a mãe dele apareceu e começou fazer um escândalo.

- Calma ai, o que vocês estão festejando? Na minha casa, sem a minha permissão e ainda enquanto eu dormia?
- Amor, vamos conversar na sala.

Ela olhou para o bolo e foi então que aumentou mais ainda o tom de voz.

- Porque só o nome dela? Você só tem uma filha?
- Desculpa – minha mãe pediu, porque ela que havia feito o bolo – Eu…
- Não mãe, não peça desculpas – eu me intrometi
- Como que é? – Ela gritou – E o nome do Davi? Eu tenho outro filho…
- Nós temos outro filho – falei no mesmo tom – mas ele não está aqui. Enquanto for assim…
- Enquanto for assim… Você só gosta dela. Sempre foi assim, você nem queria um menino – ela começou chorar. A avó dela resolveu intervir
- Minha filha, vamos um pouco lá fora?
- Vó, ele age como se o Davi estivesse morto.
- Meus Deus, olha o absurdo que você está falando – resolvi desabafar, inclusive as lagrimas que estavam me sufocando, deixei sair – Eu sofro assim como você. É nele que eu penso antes de dormir, quando acordo e quando to no meu trabalho… Ao contrario de você, eu me lembro que tenho uma filha e não vou ficar vivendo um sofrimento porque tenho que viver pra cuidar dela… Você sempre esteve aqui, mas foi a mesma coisa de não estar. Você nunca se esforçou pra pelo menos, fingir… Essa menina precisa de uma mãe, de você – pausa – Eu preciso da minha mulher e você não é ela.
- Se você é tão forte assim, parabéns pra você, porque eu todos os dias tenho vontade de abrir a janela do meu quarto e me jogar. Eu penso em diferentes maneiras de acabar com a minha vida… Eu me sinto pior ainda em saber que não tenho coragem de fazer isso… Eu deixei que levasse o meu filho…
- Não é porque pegaram ele de você, que você tem culpa.
- Eu preferia ter morrido naquele dia, a viver esses 2 anos, sem ele…Eu tenho vergonha de olhar na tua cara, porque eu me sinto culpada da nossa família não estar completa e ao mesmo tempo raiva porque você age como se tudo estivesse bem.
- A nossa filha. É por ela que eu finjo estar bem, porque ela precisa que eu esteja. E que você também esteja.
- Enfim, continue com a sua festa.

Obvio que todo mundo ficou sem clima para festa. Depois do escândalo dela, não durou nem uma hora. E no final, quando eu subi para continuar a conversa, percebi que não havia roupas dela no armário.
Ela havia saído de casa, mas na verdade ela fugiu de tudo. Da situação, dos problemas…

 (Ela narrando)

Eu fui para a casa da minha avó
- O que você faz aqui?
- Vó, eu não tenho outro lugar pra ir.
- Claro que tem. Você tem a sua casa.
- Eu não agüento mais!
- Não estar lá, vai resolver alguma coisa? Você vai deixar seu marido e a sua filha?
- Vó… Eu os amo, mas eu não consigo me livrar da culpa que eu sinto. As pessoas dizem que eu não tenho, mas eu digo o contrario. Eu tenho.
- Vamos fingir que você tem… Mesmo com culpa a gente é sim capaz de viver bem.
- Eu não.
- Você também não pode culpar seu marido por estar seguindo a vida dele. Alguém havia de seguir. Porque se ele estivesse como você, o que seria da menina?
- Como foi pra você perder meu tio?
- Eu nunca quis que ele fosse militar, mas esse era um sonho dele. Seguir os passos do pai. Então ele foi pra guerra fria… Estava saindo ilesa, mas voltou pra ajudar um amigo que caiu em uma armadilha. Uma bomba explodiu… – pausa -… Eu nunca pude enterrá-lo ou pedi perdão… – seus olhos cheios de lagrimas se perderam no vazio – Eu sempre soube que se ele fosse ele nunca mais voltaria e eu não fiz nada para impedi-lo de ir - Eu comecei a chorar – No seu caso filha, o seu filho não morreu.
- Quem garante que não?
- Eu estou com a mesma sensação daquele dia, só que boa. Seu filho vai voltar pra você. E você tem que voltar para o seu marido, para que quando seu filho volte, ele encontre a familia dele junta, esperando por ele.

Eu me arrepiei. Eu acreditei. Ela estava certa, afirmei na minha cabeça. Algo bom tomou conta de mim e eu sorri pra minha vó.
- Eu vou voltar, então.
- Ergue tua cabeça, você fraquejou por um momento, mas isso não é permanente. Tenho certeza que ele está te esperando.

Agora, a minha vergonha era de voltar para casa. Como olhar na cara dele?

(Ele narrando)

“Já é de noite e parece que ela realmente não vai voltar para casa. Eu queria ter falado para ela, como eu sinto falta dela. Talvez ela não tivesse ido”.

Quando eu estava na cama, pensando nisso alguém começou bater na porta. Eu desci correndo para que Darlene não acordasse.
Eu abri a porta e então ela me deu um abraço. Eu ia falar, mas ela pediu que eu ficasse quieto e que eu só a abraçasse. Foi o que eu fiz e ali permanecemos por uns 10 segundos.
- Amor, obrigado por voltar.
- Me deixa falar… Desculpa, pelo o que eu falei. Pelo que eu fiz, por ser fraca e não participar da vida da Darla. Desculpa por ser ausente mesmo presente. Desculpa?
- Eu te amo e quero a gente como antes, mesmo que seja estranho, sabe? Não tenho do que te desculpar, o que importa é que você percebeu que precisa ser diferente e isso que importa.
- Me ajuda então?
- Você não precisa pedir, só precisa deixar que eu te ajude.
-E olha, ele vai voltar.

Eu não respondi, não queria falar sobre isso e começar uma discussão.

Um mês que ela estava em casa, parecia que tudo estava melhorando. Na verdade estava. Ela ficava o dia inteiro com Darla, fazia bolos, sentava no balanço pra ler… Ela estava bem, mas não só com a gente, mas também com o interior dela. E essa era o principal, porque quando estamos de bem com nós mesmos, conseguimos estar bem até com quem não gostamos.

Passou-se mais um ano. Completaríamos três anos sem nossa família completa, mas…

1968 - 23 de setembro. Domingo.

Acordei com ela me beijando
- Nossa! Que beleza em? Quem não quer acordar assim.
- Bom dia!
- Bom dia!
- Acordamos na hora do almoço, então é isso que eu vou fazer.
- Rola uma lasanha?
- O que eu ganho?
- De noite eu te conto.
- Nossa, vou ir correndo fazer.

Eu levantei e fui acordar Darla. (Eu não contei, mas papai foi à primeira palavra dela).
-Filha, vamos acordar, que hoje a gente vai brincar muito.
 É, ela só ouviu, fechou os olhos e dormiu de novo. Puxou pra mim, odeio ser acordado.

Depois de ir ao banheiro eu descia as escadas, então bateram na porta.
- Já vai – ela disse da cozinha
- Eu atendo – gritei pra ela.
- Delegado?
- Demorou, mas ele está de volta! – Eu congelei. Meu coração disparou. Fiquei como no dia que ela me falou que estava grávida – Encontramos seu filho – Me arrepiei. Olhei para o carro e lá estava meu filho, dado a mão com uma policial.
- Davi… Davi – eu comecei chorar – Daaaaavi – eu corri ao encontro dele.
Ela ouviu da cozinha quando eu disse seu nome.
- Meu filho, cadê? Cadê?
- Ali com o seu marido.
Ela veio correndo atrás de mim. Eu o abracei tão forte. Mas tão forte, que nem mesmo o mais forte do mundo poderia tirá-lo de mim novamente. Ela chegou em seguida, nos dando um abraço.
- Eu sempre soube, eu sempre soube.

Lembro que ele não tinha reação alguma. Não falou nada, só permitiu que o abraçássemos.

O delegado se aproximou e começou contar o que havia acontecido.
- Uma quadrilha que vende crianças, o pegaram. Eles mantinham uma espécie de orfanato, clandestinamente. Seu filho tem um problema na perna, por isso nunca conseguiram vende-lo. Assim como mais duas crianças, ele foi abandonado, em uma igreja. Nós conseguimos identificar a quadrilha e todos estão presos e cada criança está sendo devolvida aos seus verdadeiros pais.
Nos sabemos que é ele, porque no dia do  abandono, tinha uma sacola com a roupa que você nos descreveram quando foi seqüestrado. Mas recomendo exame de Dna, apesar de que ele é cara de vocês.
- Depois de três anos delegado, não importa com quem ele estava o que importa é agora, com quem ele está. Com nós.
- Bom, ele não tem registro, nenhum documento. Creio que, agora ele vai poder ter. Davi né?
- Davi! – foi o meu sim.

(Ela narrando o reencontro)

“Não posso dizer que ao longo do caminho não mudei. Por algum tempo para melhor e por outro para pior e agora parece que para melhor de novo.
Não posso dizer que ao longo do caminho não me perdi. Tanto quanto no amor, como na dor. Tanto quando eu estava com ele, como quando fiquei sem meu filho

O que aconteceu talvez tenha sido necessário para fazer de mim, uma pessoa mais forte. De nós um casal mais forte. O tempo passou, não para me fazer esquecer, mas para me fazer superar”

1968 - 23 de setembro. Domingo

Eu como sempre, voltei a acordar primeiro. Realmente, tira-lo de cama, era algo que só a mãe dele conseguia.
- Vamos, acorda – eu comecei encher ele de beijos… – Vamo, amor!
Ele levantou já pedindo lasanha e me prometendo algo, para de noite. Eu ri, realmente depois de dois anos sem fazer nada, parecia que todo dia era lua de mel.

Acordamos tarde, era hora de almoço na verdade, então fui preparar… (Nossa! Como fazia falta cozinhar, mas eu nem tinha me dado conta disso)

Alguém começou bater na porta, eu gritei que já estava indo, mas ele desceu as escadas correndo e atendeu.
Como sempre fui curiosa, até baixei o radio para ouvir a conversa e estranhei “O delegado? O que será que ele quer?” Eu até pensei, em em ir até eles, mas seria muita intromissão ir sem ser chamada.
Eu ouvi “Delegado?”, “Demorou, mas ele está de volta” Eu congelei. Só poderia ser meu filho… Eu queria sair, mas meus pés pareciam estar pregados no chão.
Toda a história da minha vida passou pela minha cabeça, eu conhecendo ele, a minha gravidez, meu casamento… Todos os bons momentos passaram como um filme e dizem que isso acontece quando você está morrendo, mas não. Eu estava muito viva e ouvi quando ele gritou o nome do meu filho.

Eu fui mais forte do que aquilo que me prendia e sai correndo até a porta
- Meu filho, cadê? Cadê?
- Ali com o seu marido.

Eu sai em disparada, atrás dele. E me joguei para o abraço.
Foi um dos melhores momentos da minha vida. Agora eu tinha os caras mais importantes, juntos de mim.
“Eu nunca mais vou te perder” eu pensei, porque não tinha condições alguma de falar, era tanta emoção que palavras me faltavam.
Davi, era é a cara do pai. Sou suspeita, mas ele é lindo…

Apesar da espera de anos, havia valido a pena. Já as tristezas, os pensamentos e a depressão foram inúteis, mas ao mesmo tempo precisos para que eu me tornasse mais forte do que eu pensava que eu fosse. Aprendi que apesar dos pesares, os melhores dias e as melhores pessoas sempre virão.

E.denis